5# INTERNACIONAL 4.12.13

     5#1 O IDEALISTA, O ESPERTALHO E O PERDEDOR
     5#2 UM DUELO NACIONALISTA
     5#3 OS BOICOTADOS
     5#4 NA PTRIA DE PIZZOLATO,...

5#1 O IDEALISTA, O ESPERTALHO E O PERDEDOR
Para os EUA, o acordo diplomtico para conter o programa nuclear do Ir  uma opo melhor do que ir  guerra, mas est longe de ser o fim dos planos dos aiatols de ter a bomba atmica
TATIANA GIANINI

     Um "acordo histrico" sobre o programa nuclear iraniano foi celebrado nos ltimos dias. A melhor definio sobre o que aconteceu veio do chefe da agncia atmica iraniana, Ali Akbar Salehi: " como uma torneira que fechamos e podemos abrir de novo se eles no cumprirem seus compromissos". Da linha de montagem construda pelo Ir para fazer uma bomba atmica, nenhuma pea ser retirada. A produo s ter de ficar desativada por um tempo ou reduzida a um nvel inofensivo, at que o Ir resolva "abrir a torneira" e concluir a bomba, de urnio ou de plutnio. O consenso ao qual chegaram os representantes do Ir, dos membros permanentes do Conselho de Segurana da ONU (Estados Unidos, China, Rssia, Frana e Inglaterra) e da Alemanha em Genebra, na Sua, no domingo 24, determina que, por seis meses, o Ir apenas poder enriquecer urnio com at 5% do istopo 235, para uso pacfico. O material que o pas j possui de urnio a 20% ser diludo ou convertido em xido de urnio, de modo que no possa ser facilmente enriquecido a 90% para abastecer ogivas nucleares. A instalao de novas centrfugas ser proibida. O entendimento ainda prev o monitoramento das instalaes nucleares pela Agncia Internacional de Energia Atmica (AIEA). Como prmio pelo bom comportamento, os iranianos podero ganhar um alvio nas sanes econmicas impostas ao pas. Se tudo for cumprido no prazo de seis meses, o passo seguinte vai ser a tentativa de um acordo definitivo. 
     Paralisar o avano do programa nuclear iraniano foi a opo mais vantajosa para o presidente americano Barack Obama. As outras alternativas eram bombardear as instalaes nucleares persas ou simplesmente cruzar os braos e assistir ao Ir se transformar em uma potncia atmica. Um ataque ao Ir complicaria ainda mais o j conturbado Oriente Mdio. Alm disso, depois de duas guerras concomitantes, no Iraque e no Afeganisto, a populao americana no est interessada em outra interveno militar. Afundado no fracasso da implementao do novo sistema de sade, que fez a desaprovao a seu governo subir para 51%, Obama no poderia sonhar com melhor momento para exibir uma conquista em poltica externa. A vitria de curto prazo, porm, pode se transformar em derrota se os iranianos repetirem o roteiro de acordos anteriores, em que enganaram a comunidade internacional com suas promessas e acabaram obstruindo o trabalho dos inspetores nucleares. De todas as partes interessadas, o Ir  a que menos corre riscos. Alm do alvio nas sanes, que elevaram a inflao do pas, os iranianos conquistaram o reconhecimento tcito do seu direito de enriquecer urnio, ainda que a apenas 5%. O lder supremo do Ir, Ali Khamenei, afirmou diversas vezes que o pas no faria concesses quanto a isso. Em 2004, quando o ento ditador lbio Muamar Kadafi abriu mo do programa nuclear para normalizar suas relaes com o Ocidente, o esperto Khamenei disse que Kadafi era "um idiota". Morto sob tortura por uma turba de rebeldes, em 2011, Kadafi personifica a convico dos autocratas que no veem incentivo algum em abdicar de seus planos atmicos. 
     Para de fato resolverem a questo do programa nuclear do Ir, os Estados Unidos e seus aliados tero de exigir, em um acordo final, a reduo do nmero de centrfugas e o acesso dos tcnicos da AIEA tambm s instalaes militares do pas. Israel, que teme ser o alvo da primeira bomba nuclear iraniana, seguir  frente, defendendo um desmantelamento total do programa de enriquecimento de urnio dos persas. Por enquanto, o premi israelense, Benjamin Netanyahu, aparece como o grande fracassado do acordo. No s ele foi incapaz de influenciar o seu maior aliado numa questo vital para a sobrevivncia do seu pas, como ficou impedido de se aventurar sozinho em um ataque areo s usinas do Ir, sob o risco de sofrer retaliao mundial, inclusive dos Estados Unidos. A Arbia Saudita, de maioria sunita, que tem no Ir, xiita, o seu maior inimigo no mundo islmico, tambm se sentiu trada pelos americanos. "Se o Ir construir uma bomba atmica, isso mudar totalmente a tomada de deciso e as alianas na regio", diz o cientista poltico americano Paul Bracken, da Universidade Yale. Obama aposta que negociar com o Ir pode ter o mesmo efeito  para o bem. 

UMA SIMPLES PARALISAO
O programa nuclear do Ir tem meios para produzir dois tipos de combustvel para a bomba atmica, o urnio enriquecido a 90% e o plutnio. Pelo acordo firmado com os membros permanentes do Conselho de Segurana da ONU e a Alemanha, nenhuma das duas linhas de produo ser desmontada.

O QUE DIZ O ACORDO: O Ir no poder acrescentar centrfugas a suas usinas de enriquecimento de urnio.
POR QUE NO RESOLVE: As centrfugas existentes, que produzem o material para a bomba, ficaro intactas

O QUE DIZ O ACORDO: Reservas de urnio enriquecido a 20% devem ser neutralizadas, ou seja, diludas ou oxidadas.
POR QUE NO RESOLVE: A neutralizao pode ser revertida em, no mnimo, dois meses

O QUE DIZ O ACORDO: O Ir no poder abastecer o reator de gua pesada de Arak, que ser capaz de produzir plutnio em 2014
POR QUE NO RESOLVE: O Ir j avisou que vai continuar as obras em Arak

O QUE DIZ O ACORDO: Os iranianos permitiro inspees dirias nas usinas Natanz e Fordow
POR QUE NO RESOLVE: Instalaes militares, como a de Parchin, no precisaro abrir as portas aos inspetores.

QUASE L
O grau de enriquecimento do urnio determina o seu uso
Etapas j vencidas pelo Ir:
0,7% Material encontrado na natureza.
3,5% Gerao de energia eltrica.
20% Pesquisas cientficas.

Mais de 90% Combustvel para a bomba atmica
Quanto faltaria para chegar a esse estgio: sem acordo 1 ms; Com o acordo 9 meses. (*Se no for renovado por mais seis meses ou se no houver um acordo definitivo)

Fontes: Instituto para Cincia e Segurana Internacional (Isis) e Frank N. von Hippel, da Universidade Princeton.


5#2 UM DUELO NACIONALISTA
A China e o Japo usam a disputa por um punhado de ilhas para faturar na poltica interna.

     O nacionalismo pode ter origens opostas. Cresce quando um pas enriquece e almeja mais poder regional. Esse  o caso da China. O mesmo sentimento tambm se fortalece quando uma nao enfrenta uma crise duradoura e o governo precisa de evasivas para amansar o descontentamento da populao. Isso est acontecendo no Japo, atualmente. Os anseios desses dois gigantes econmicos, um em ascenso e o outro lutando contra o declnio, materializaram-se em um conjunto de ilhotas a 170 quilmetros de distncia do territrio japons e a 330 quilmetros do chins. No sbado 23, a China anunciou unilateralmente a criao de uma nova zona de defesa que se sobrepe, em parte, ao espao areo japons. Com a ordem, avies de outras nacionalidades seriam obrigados a apresentar suas credenciais quando passassem por ali. Dois dias depois, os Estados Unidos mostraram sua reprovao e enviaram dois avies bombardeiros B-52 para a rea. Seus pilotos no deram nenhuma satisfao pelo rdio aos controladores areos chineses. Em seguida, a Coreia do Sul  e o Japo tambm mandaram aeronaves para o local, sem prestar contas. Na quinta 28, a China comunicou que despachou avies militares para a regio. 
     As ilhas, chamadas de Senkaku pelos nipnicos e Diaoyu pelos chineses, so controladas pelo Japo e ganharam relevncia na dcada de 70, quando foi confirmada a existncia de gs e petrleo nas proximidades. A disputa coleciona picos de tenso. O ltimo comeou h um ano, quando Tquio comprou as ilhas de seu antigo proprietrio, um cidado japons. 
     O presidente chins Xi Jinping, que assumiu o cargo neste ano, colhe os frutos de uma dcada de crescimento. Obrigado pelas circunstncias a tomar medidas que liberalizam a economia, no quer ser tachado de entreguista. Entre suas metas est reforar o papel do Estado na poltica. J o primeiro-ministro do Japo, Shinzo Abe, busca manter a populao unida em torno de seu programa para reverter a deflao, que consiste em injetar dinheiro do Estado na economia. "China e Japo explicitaram suas posies, mas no devem passar disso", diz Luiz Augusto Castro Neves, ex-embaixador do Brasil nos dois pases. O risco de ocorrer um embate militar direto  pequeno, mas, em situaes tensas como essa, algo sempre pode fugir do controle. 
NATHALIA WATKINS


5#3 OS BOICOTADOS
Os senadores que protegeram um colega nepotista sofreram repdio da sociedade paraguaia e voltaram atrs.

     Paraguai  o segundo pas mais corrupto da Amrica do Sul, atrs apenas da Venezuela, de acordo com a Transparncia Internacional. Na semana passada, seus cidados demonstraram estar fartos disso. Milhares de paraguaios foram s ruas da capital, Assuno, em protesto contra uma votao no Senado. Nela, 23 congressistas absolveram o senador Vctor Bogado, do Partido Colorado, o mesmo do presidente Horcio Cartes. Bogado, que tambm deu seu voto,  acusado de ter empregado a bab de seus filhos na Cmara dos Deputados e na hidreltrica Itaipu Binacional, com rendimentos totais equivalentes a 8200 reais. s manifestaes de rua somaram-se os donos e funcionrios de mais de 100 estabelecimentos comerciais da  cidade que decidiram boicotar os senadores que protegeram o nepotista. Deu certo. Na quinta-feira 28, os senadores mudaram o voto e retiraram o foro privilegiado de Bogado, que ser julgado pela Justia comum. 
     Ao longo dos dias de reao popular, houve casos como o do garom da pizzaria II Bambu, que se aproximou da mesa em que o senador Oscar Gonzlez Daher pretendia jantar com uma mulher e recomendou-lhe que se retirasse. O poltico saiu antes de fazer o pedido. Das outras mesas, ouviam-se gritos de "Fora, ladro!". Os "23", como ficaram conhecidos os senadores corporativistas, foram barrados tambm em shopping centers, postos de gasolina e cinemas. Os hospitais aceitaram atend-los, deixando claro que s o faziam por uma questo de humanidade. 
     Pas exportador de gros e de gado e com receitas vindas do comrcio em Ciudad del Este, o Paraguai tem se desenvolvido no setor de servios. A classe mdia j representa mais de um quarto da populao. O PIB neste ano deve crescer 12,5%. Apesar de terem mais dinheiro, os paraguaios no desfrutam uma melhora na qualidade dos servios pblicos. O pas carece de bons hospitais, escolas e estradas. A nova situao reduziu a tolerncia do povo em relao a polticos corruptos. Os paraguaios, porm, no saberiam contra quem se rebelar se o voto no Senado fosse secreto. O episdio demonstra quanto a democracia ganha quando se conhece de que lado ficam os parlamentares ao decidir pela punio ou pelo acobertamento dos abusos cometidos por seus pares. 


5#4 NA PTRIA DE PIZZOLATO,...
...o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi foi cassado do Senado, depois de condenado por fraude fiscal. No  bom negcio trocar a Justia do Brasil pela da Itlia.

     Henrique Pizzolato, se voc ainda  leitor de VEJA (a verso em tablet  tima), a vai um conselho: no  bom negcio trocar a Justia do Brasil pela da Itlia. Os condenados por juzes italianos tm a vida interrompida e pegam cana dura. No tem essa de bancar preso poltico, virar gerente de hotel ou receber visitas fora do horrio. Veja o caso do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Na semana passada, meses depois de ser condenado em definitivo por fraude fiscal, numa das dezenas de processos em que  ru, ele foi cassado do Senado. No adiantou espernear dizendo-se vtima de perseguio, ameaar derrubar o governo com a fora do seu partido, chantagear o presidente da Repblica em busca de clemncia, nada. No se concebe ter um condenado no Parlamento. 
     Cassado e, agora, sem imunidade, Berlusca corre o risco de ver o sole mio nascer quadrado, no caso de ser condenado inapelavelmente mais uma vez. Por exemplo, na ao em que  acusado de corrupo de menor  a prostituta Ruby "Rubacuori", que tinha menos de 18 anos quando participou de uma orgia na casa de praia do stiro setento. Pizzolato, pense bem, o homem foi primeiro- ministro, o homem dominou a cena poltica da Itlia por vinte anos, o homem cogita at fugir para a Rssia do amigo Vladimir Putin, que lhe teria dado um passaporte diplomtico... Fica aqui o aviso, Pizzolato. 
     A diferena entre o discurso de Berlusconi e o dos mensaleiros  que o italiano tacha a Justia de seu pas de esquerdista, enquanto os mensaleiros choramingam que a brasileira  direitista. "A esquerda comemora porque me colocou diante do peloto de fuzilamento", disse o ex-primeiro-ministro e ex-senador, num comcio em Roma, logo aps a cassao. No mais, o mesmo brao erguido, a mesma presepada de que se feriu a democracia, a mesma plateia de gente esquisita ou a soldo do partido. 
     Proibido pela Justia de ocupar cargos polticos nos prximos anos, por causa da condenao por fraude fiscal, mesmo assim Berlusconi pretende comandar a sua agremiao, que voltou a se chamar Forza Itlia, como h duas dcadas, na retomada do poder. Para frustrar o seu plano, existe finalmente um lder de centro-direita  altura de enfrent-lo: Angelino Alfano, quarento, atual vice-primeiro-ministro no governo de coalizo com a esquerda e tambm ministro do Interior. Alfano rompeu com o padrinho quando ele quis levar adiante a loucura de derrubar o primeiro-ministro Enrico Letta. Ridicularizado nos canais de TV de Berlusconi, o vice-primeiro-ministro j exibe uma bancada com boa musculatura no Parlamento. "Nunca fui o seu verdadeiro delfim", constatou Alfano no dia seguinte  cassao. A disputa entre ambos est condicionada,  claro, ao futuro judicial do cassado. E ele  bastante cinzento. Viu, Pizzolato? 
MRIO SABINO, DE PARIS


